O novo costuma ser melhor …

Tesla

O mundo muda cada vez mais rápido e isso se dá em grande parte pelo acumulado da evolução humana em todos os campos da nossa atuação. Muita coisa boa tem resultado disso, da maior produção de alimentos à cura para doenças antes inalcançáveis. O novo costuma ser melhor, mesmo que nosso saudosismo nos leve a contestar isso.

Ainda assim, de tempos em tempos, há que se colocar o pé no freio e questionar os benefícios alegados que são trazidos pelas mudanças. Um tema em particular tem me incomodado bastante ultimamente, o da eletrificação dos transportes. Vários países desenvolvidos anunciaram que pretendem banir a venda e até a circulação de veículos com motor a combustão num futuro bastante próximo. Por sua vez, várias fabricantes anunciaram planos para se conformar a essas diretivas, planejando a transição para veículos movidos exclusivamente por motores elétricos, sendo que alguns pretendem atingir esse objetivo em meros 5 anos.

Numa análise rasa, estaríamos vivendo uma grande evolução, pela qual teríamos uma maior qualidade de vida como espécie em razão do fim da poluição atmosférica gerada por carros, motos, aviões e navios. Seria o começo do fim do aquecimento global e quem é que não gostaria disso?

Ocorre que esse cenário belo e romântico não é tão simples. Como tudo nessa vida, há ramificações e reverberações em se mudar quase que repentinamente a forma como o mundo todo se movimenta.

O tópico da poluição, por exemplo, demanda um debate muito mais profundo. Se um carro elétrico não emite poluentes no consumo da energia das baterias como faz um motor convencional ao queimar o combustível do tanque, a produção das baterias em si é um processo extremamente complexo e altamente poluente. Sem contar o fato de que as matérias-primas usadas nas baterias são raros e caros, o que se traduz num oligopólio de poucos países no mundo capazes de fornecê-los, o que suscita a questão dos verdadeiros motivos por trás desse movimento aparentemente filantrópico. Uma pesquisa da Polestar, marca de elétricos subsidiária da Volvo, concluiu que um carro elétrico só começaria a poluir menos que um modelo tradicional depois de ter rodado 50.000 km, por conta das emissões da sua cadeia produtiva, por exemplo.

Compondo o problema, seu descarte e reciclagem é várias ordens de grandeza mais custoso e difícil que a de um modelo convencional. E ainda nem tocamos no fato de que toda a infraestrutura de abastecimento de energia, desde a geração, passando pela transmissão e distribuição, teria que ser substancialmente alterada, transformação essa que geraria ainda mais resíduos e poluição pelas obras de construção inexoravelmente necessárias à implementação do novo paradigma.

O Brasil estava na vanguarda dessa solução quando da primeira crise do petróleo, há quase meio século. Começamos a desenvolver biocombustíveis e toda sua cadeia de produção numa velocidade e qualidade sem precedentes. O etanol e o biodiesel poderiam (e deveriam) ser os combustíveis que movem o mundo já há muito tempo. Se conseguimos aumentar a produtividade de todas as lavouras que alimentam o mundo em mais de 1000%, certamente poderíamos ter atingido resultados similares se tivéssemos investido em pesquisa e desenvolvimento de biocombustíveis de forma reiterada e sustentada desde então. Infelizmente, nossa nação não tem um projeto de longo prazo e os ventos mudam de direção a cada novo governo. É uma grande pena.

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