A esperança renasce em Cuba

Desde o dia 11 de julho de 2021 o povo de Cuba vive o maior e mais importante momento na sua incansável luta pela liberdade, que começou após o sucesso da Revolução Cubana, que a partir de 1º de janeiro de 1959 instaurou a implacável ditadura comunista na ilha.

Este fato histórico marcou profundamente a América Latina a partir da década de 1960, e projetou os nomes de Fidel Castro e de Che Guevara entre muitos latino-americanos que queriam a Cuba comunista como o exemplo a ser seguido pelos seus países. Estes sonhadores utópicos e fracassados não hesitaram em pegar em armas em nome da revolução comunista, e para atingir este objetivo receberam treinamento militar e apoio logístico do regime castrista.

A Terceira Lei de Newton diz que a toda ação corresponde uma reação de igual intensidade, mas que atua no sentido oposto. A princípio, a Física não tem nenhuma relação com a política e a geopolítica internacionais, mas no caso que envolve Cuba e a América Latina a relação é extremamente próxima.

Distante cerca de 150 km dos EUA, e sob a orientação do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), Cuba passou a exportar a sua revolução para os países da América Latina. Foram intensificadas as ações de desestabilização política e infiltração comunista nas instituições latino-americanas, ao mesmo tempo em que surgiram grupos dedicados à guerrilha rural e ao terrorismo urbano em vários países latino-americanos. Como reação a esta ameaça, foram instalados regimes militares em diversos países do continente, inclusive no Brasil, cujas Forças Armadas impediram que o comunismo chegasse ao poder em duas ocasiões cruciais. A primeira foi em 1964, quando a subversão comunista foi neutralizada pela Revolução Democrática de 31 de Março; a segunda ocorreu de 1966 a 1975 com o desmantelamento e a vitória total sobre as organizações extremistas que promoveram guerrilhas rurais e urbanas.

Enquanto fazia da subversão o produto mais importante de sua pauta de exportações, superando até mesmo os famosos charutos produzidos na ilha, Fidel Castro eliminava sistematicamente as liberdades individuais dos seus compatriotas, que não tinham como escapar da grande prisão insular criada à base de execuções sumárias de milhares de pessoas opositoras do regime, muitas destas execuções foram conduzidas diretamente pelo sanguinário Che Guevara, que foi transformado em herói pela eficiente propaganda comunista, muito atuante inclusive no Brasil. Visando expandir o comunismo, Cuba também interviu em guerras na África, e esta política contribuiu para aprofundar os dramas de morte, destruição e miséria que o continente africano ainda vive nos dias atuais.

Hoje, a incompetência administrativa do comunismo cubano expõe um país incapaz de suprir o seu povo com necessidades básicas inerentes à sobrevivência. Em 2021 Cuba apresenta escassez de muitos itens essenciais, principalmente gêneros alimentícios, material de higiene e remédios; também falta eletricidade, sendo constantes as interrupções no seu fornecimento. A exceção é a casta dirigente do Partido Comunista de Cuba, que à semelhança da antiga “Nomenklatura” soviética, tem fácil acesso aos itens essenciais e até aos extremamente supérfluos, que nunca estarão disponíveis para o cidadão cubano comum. Estes mesmos itens essenciais são de fácil acesso no Brasil, e nós não conseguimos imaginar as nossas vidas sem que eles estejam disponíveis nas gôndolas dos nossos supermercados, empórios, armazéns, lojas de conveniências e farmácias.

Mesmo com o estado de penúria que impera na ilha, o que mais faz falta ao povo cubano é a liberdade, que é o mais direito mais básico de todo cidadão. São mais de sessenta anos sem usufruir deste conceito não material e de profunda necessidade para a existência do ser humano. A liberdade de pensar, de expressão e de ir e vir são negadas a onze milhões de pessoas, que vivem impedidas de raciocinar, falar e deslocar-se por si mesmas, tudo em nome de um regime violento, contraditório e fracassado.

O clamor do cansado povo cubano explodiu no último dia 11 de julho de 2021, e além da capital Havana, ocorreram protestos em diversas cidades. Ouvia-se um inédito e esperançoso grito por liberdade e democracia ao som da canção “Patria y Vida”, a música que virou o hino dos cubanos opositores do comunismo moldado por Fidel Castro.

Imagem: Alexandre Meneghini/Reuters

A pandemia expôs duas graves deficiências de Cuba. A economia do país, comprometida pelo bloqueio econômico imposto pelos EUA, baseia-se no turismo internacional para arrecadar os dólares que necessita, e hoje vive uma crise sem precedentes, pois os turistas não aparecem na ilha, por causa das restrições e proibições sanitárias internacionais, e desta forma as divisas em moeda forte tornaram-se escassas. O sistema de saúde também enfrenta graves e crônicos problemas como a falta de insumos médicos e falta profissionais para combater a alta incidência da Covid-19, além da pouca oferta de vacinas para imunizar a população.

A reação do governo cubano seguiu o roteiro previsto para um regime ditatorial que enfrenta protestos populares visando democracia e liberdade. O senhor Miguel Díaz-Canel, Presidente da República e Primeiro Secretário do Partido Comunista de Cuba, cuja sigla coincidentemente é PCC, determinou forte e desproporcional repressão do aparato policial, com prisões sumárias e encarceramento de manifestantes por tempo indeterminado; censura e bloqueio à internet para que as informações sobre os protestos não chegassem ao exterior; convocação de manifestações populares em apoio ao regime comunista, na tentativa de mostrar ao mundo que os manifestantes pela democracia são minoria; culpou o bloqueio econômico imposto pelos EUA por todas as mazelas do país, inclusive acusando os manifestantes de serem agentes treinados pela CIA para sabotar o regime.

Cuba vive em uma encruzilhada, pois o país não tem condições econômicas para manter-se vivo por si só, ao mesmo tempo em que não pode modificar as suas políticas interna e externa sob o risco do regime  desmoronar. Salienta-se que no Brasil, o Partido dos Trabalhadores, que era a maior fonte de financiamento e de sobrevivência do regime cubano, foi retirado do poder após quatro desastrosos mandatos presidenciais.

O mundo reagiu às manifestações de Cuba, principalmente pelo quase e marcante ineditismo de sua pauta de reivindicações. Líderes políticos mundiais manifestaram-se de acordo com os seus interesses ideológicos, uns apoiando com veemência os democratas cubanos e outros condenando as ações dos manifestantes. Destaca-se o posicionamento do presidente norte-americano Joe Biden, que apóia as manifestações desde o início e condena as ações repressoras da ditadura cubana. É um cenário surpreendente para quem esperava que o novo líder norte-americano modificasse radicalmente as políticas do ex-presidente Donald Trump com relação à ditadura cubana, principalmente no que diz respeito às sanções econômicas, que continuam vigorando com a mesma intensidade após a troca na presidência do país.

Uma reação patética e diametralmente oposta em relação à dos EUA veio de Caracas, na Venezuela, que é o mais recente bastião socialista na América Latina, coincidentemente hoje um país destruído política e economicamente após os desgovernos bolivarianos de Hugo Chavez e Nicolás Maduro. O senhor Disdado Cabello, que é o Primeiro Vice-Presidente do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), afirmou que não existem protestos em Cuba, e que as manifestações mostradas ao mundo eram comemorações de torcedores após a final da Eurocopa e da Copa América. É a utilização do futebol como instrumento de uma tentativa inútil de esconder e desmentir um fato de extrema importância.

A esquerda brasileira aproveita o Estado Democrático de Direito para destruir a democracia através do seu projeto de tomada do poder e instalação da ditadura de partido único, e tem como objetivo permanente transformar o Brasil em uma imensa Cuba continental. A sua reação aos protestos cubanos foi de apoio à repressão da ditadura comunista, e esta atitude contraditória difere muito da sua falsa defesa das instituições democráticas brasileiras.

Anteriormente, as maiores manifestações por liberdade em Cuba ocorreram em 5 de agosto de 1994, e receberam o nome de Maleconazo. A maior diferença entre os dois fatos históricos é que agora temos a internet e as redes sociais, que possuem a capacidade instantânea de divulgação de eventos, por isso o movimento de julho de 2021 tem muito mais importância para o ressurgimento da democracia em Cuba. Apesar da forte repressão aos manifestantes cubanos, deve-se acreditar que a voz deles será o início de um movimento maior, genuinamente nacional, que contribuirá para o fim da ditadura comandada pelo Partido Comunista de Cuba, cuja existência infelicita toda América Latina desde o seu advento. Desta forma, pode ser dito que “A esperança renasce em Cuba”.

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