Jogos Olímpicos de Tóquio foram válidos em época de pandemia?

No último dia 8 de agosto de 2021, no Estádio Olímpico de Tóquio, a pira olímpica foi apagada e encerrou a 32ª edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna. Previsto para ser realizado em 2020, o grande evento do esporte mundial foi adiado por um ano por causa da pandemia da Covid-19.

O ano de 2020 não apresentava condições sanitárias para a realização dos Jogos, que começariam no dia 24 de julho daquele ano. Àquela época o coronavírus alastrava-se velozmente e com grande capacidade de fazer vítimas fatais, sem que a ciência tivesse as armas eficazes para combatê-lo. Assim, o Comitê Olímpico Internacional (COI) adiou os Jogos Olímpicos para o ano de 2021, na expectativa da pandemia estar controlada, principalmente através da vacinação maciça da população mundial.

Perante este cenário, devemos questionar se foi acertada a realização dos Jogos Olímpicos em 2021, sem que a pandemia do Covid-19 estivesse controlada. Para a responder racionalmente esta questão, devem considerados alguns fatores que serão apresentados a seguir.

Guerra mundial

Não é exagero dizer que a humanidade está em guerra contra o coronavírus, inimigo que, no início de 2020, nos causou sérias derrotas, pois não tínhamos as informações para enfrentá-lo. Hoje estamos em melhores condições para o combate, e mesmo que não sejamos capazes de infringir uma derrota decisiva ao vírus, a guerra continua com excelentes perspectivas de vitória para a humanidade.

Ao longo da história, as guerras mudaram o caminho da humanidade, e não foi diferente com os dois conflitos mundiais do século XX. As grandes guerras ocorridas entre 1914 a 1918 e 1939 a 1945 foram responsáveis pelo cancelamento dos Jogos Olímpicos que aconteceriam em 1916, 1940 e 1944.

Os Jogos Olímpicos de 1916 que seriam realizados em Berlim, capital da Alemanha, só foram realizados em 1920, em Antuérpia, após o fim da 1ª Guerra Mundial e a pandemia de gripe espanhola arrefecer. Em 1940 Tóquio receberia os Jogos, porém em 1937 a sede foi transferida para Helsinque, capital da Finlândia, por causa da invasão japonesa à China. O ano de 1939 marcou o início da 2ª Guerra Mundial, e o conflito cancelou definitivamente esta edição dos Jogos Olímpicos; havia a expectativa da realização em 1944, na cidade de Londres, mas a guerra terminou em 1945 e o evento ocorreu em 1948.

Guerras entre impérios, nações e ideologias cancelaram os Jogos Olímpicos nas três oportunidades citadas, mas em 2020 e 2021 uma guerra do ser humano contra um vírus fatal não teve este poder.

Mutações e vacinação

Hoje a pandemia de Covid-19 apresenta duas grandes ameaças, que são as mutações do coronavírus e a vacinação. Todo vírus tem as mutações como uma de suas principais características, podendo acarretar no surgimento de novas cepas com potencial de contaminação e letalidade maiores.

A população mundial está sendo vacinada em diferentes ritmos, sendo que as taxas de imunização dos países são diretamente proporcionais à pujança de suas economias. Em resumo, países mais ricos vacinam mais e países mais pobres vacinam menos. Assim, as contaminações, internações e óbitos onde a população está mais imunizada caem consideravelmente.

Neste cenário entram as mutações do coronavírus, que geralmente surgem em áreas de baixa cobertura vacinal, originando novas cepas que mostram-se mais agressivas e resistentes aos imunizantes já desenvolvidos. O caso mais preocupante é a variante Delta, que tem uma capacidade de transmissão muito grande, já chegou a todos os continentes, podendo contaminar pessoas em qualquer lugar do mundo, inclusive nos países que mais vacinam, mas cujas populações ainda não estão totalmente imunizadas.

Assim, crescem de importância as medidas para impedir a proliferação desta variante do vírus e para aumentar a oferta de vacinas para os países pobres.

Jogos Olímpicos na prática

Uma Olimpíada é um gigantesco evento esportivo que ocorre em uma única cidade previamente selecionada pelo COI. Atletas do mundo todo convergem para tal local em busca da consagração máxima materializada na forma de uma medalha de ouro, que hoje tem o mesmo significado das coroas de louros ofertadas aos campeões olímpicos da Grécia Antiga.

A competição atual pode ser considerada como a realização simultânea dos campeonatos de diversos esportes em uma mesma cidade em um intervalo de tempo de aproximadamente quinze dias. A grande quantidade de esportes olímpicos, o pouco tempo e a concentração de todas as disputas em uma única cidade impõe um ritmo acelerado para as competições, que acontecem em todos os dias e horários disponíveis. Como comparação, a Copa do Mundo de Futebol dura aproximadamente trinta dias, usa em média onze cidades como sedes, e atualmente tem a participação de 32 seleções.

Tóquio recebeu mais de 11.000 atletas de 203 países de todos os continentes, além dos inúmeros integrantes das comissões técnicas e uma expressiva quantidade de jornalistas que cobriram o evento. Desta vez os torcedores ficaram ausentes por causa das restrições impostas pela pandemia. A elevada quantidade de pessoas envolvidas no evento pode acarretar o aumento nas taxas de transmissão do coronavírus, mesmo que a  maioria   tenha sido previamente vacinada e grande parte seja composta por pessoas saudáveis, pois são atletas de alto rendimento, os melhores do mundo em suas modalidades esportivas.

Japão – eficiência e situação na pandemia

O Japão é reconhecido por ser um país muito organizado, que pauta as suas ações pela seriedade, competência e eficiência. O grau de escolaridade da população é elevado, fato que faz com que o país esteja na vanguarda da tecnologia em praticamente todas as áreas do conhecimento humano.

Estes fatores extremamente positivos não impediram que o coronarírus chegasse às terras nipônicas, seguindo o roteiro clássico de elevada taxa de contaminação, sobrecarga nos serviços de saúde e considerável número de óbitos, ainda que apresentando números muito mais baixos em relação aos países mais afetados pela pandemia, como o Brasil por exemplo.

O comitê organizador dos Jogos Olímpicos montou uma grande operação para isolar os atletas, comissões técnicas e jornalistas envolvidos nas competições, visando reduzir a possibilidade de contaminação, que poderia aumentar os índices da doença no Japão, bem como levá-la, em outros patamares, para qualquer ponto do planeta já muito afetado pela pandemia.

Aparentemente, a eficiência japonesa mostrou resultado, pois poucas pessoas envolvidas nos Jogos Olímpicos foram contaminadas durante a realização do evento, mostrando que as medidas preventivas foram eficientes para impedir uma grande proliferação do vírus; também não foi registrado aumento significativo na contaminação do povo japonês.

O Brasil nas Olimpíadas

Como acontece em toda edição dos Jogos Olímpicos, a participação dos   atletas brasileiros em Tóquio foi cercada de otimismo e expectativa, com o povo ansioso pelas medalhas dos seus heróis e heroínas, que enfrentam todo tipo de dificuldades para treinar e competir. Vivemos uma realidade de pouco apoio aos esportes, situação atenuada pelo Programa Atletas de Alto Rendimento (PAAR) do Ministério da Defesa, que incorpora atletas de alto nível às Forças Armadas, resultando em oito medalhas de atletas militares para o Brasil.

Cancelar os Jogos Olímpicos de Tóquio prejudicaria os atletas, pois muitos não terão a oportunidade de participar da edição de Paris em 2024. Não teríamos orgulho de Ítalo Ferreira, Rebeca Andrade, Martine Grael, Kahena Kunze, Ana Marcela Cunha, Isaquias Queiroz, Hebert Sousa e a seleção masculina de futebol, que entraram para o grupo de brasileiros campeões olímpicos.

Os nossos medalhistas de prata e bronze merecem respeito e admiração por suas conquistas. Alguns, como o vôlei feminino, estão acostumados a grandes decisões, e outros como a skatista Rayssa Leal, a “Fadinha” estão apenas iniciando uma longa e vitoriosa caminhada esportiva.

Um atleta brasileiro não ganhou medalha em Tóquio, mas venceu a disputa da superação. Trata-se do arremessador de peso Darlan Romani, quarto colocado na disputa olímpica da modalidade, com a marca de 21,88 metros, a apenas 59 centímetros da marca alcançada pelo medalhista de bronze.

Antes das Olímpiadas Darlan superou muitas dificuldades, como a ausência do seu treinador, ser submetido a uma cirurgia, a contaminação pelo coronavírus e ser obrigado a treinar em um terreno baldio, sem a mínima estrutura para um atleta que busca uma marca expressiva no esporte. O seu exemplo de força de vontade deve ser seguida por outros atletas, pois as dificuldades foram feitas para serem superadas. Sem os Jogos de Tóquio não testemunharíamos a incrível história do herói olímpico Darlan Romani.

Conclusão

A realização dos Jogos Olímpicos de Tóquio teve argumentos favoráveis e contrários. Ainda é prematuro dizer se as taxas de contaminação do coronavírus aumentarão no Japão e em outras partes do mundo, por causa de pessoas que porventura retornem contaminadas aos seus países de origem.

Que a realização dos Jogos não agrave a pandemia no Japão e no mundo, permanecendo nos mesmos níveis de antes da pira olímpica ser acesa. Da mesma forma como ocorreu no Brasil após o fim da Copa América, ocorrida em 11 de julho de 2021, contestado evento futebolístico que sediamos, e que felizmente não nos trouxe prejuízos sanitários.

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