Duque de Caxias – o pacificador, o estadista e soldado que forjou a unidade nacional

Hoje é 25 de agosto, data em que é comemorado o Dia do Soldado, justa homenagem ao Marechal Luiz Alves de Lima e Silva, o Patrono do Exército Brasileiro, nascido em 25 de agosto de 1803, e que é conhecido como Duque de Caxias. É o mais importante militar desta instituição nacional e permanente, de participação ativa nos mais importantes momentos da História do Brasil, e que tem origem na Batalha dos Guararapes contra o invasor holandês que dominava o Nordeste do Brasil.

A importância do Duque de Caxias para o Brasil transcende a sua inata e grande capacidade como estrategista militar e vencedor de inúmeras batalhas e campanhas ao longo de mais de cinquenta anos de serviço e de dedicação ao Exército Brasileiro e ao Império do Brasil. Com virtudes de estadista e soldado, ele compreendia que a manutenção da unidade nacional era o bem mais importante, em que pese as opiniões políticas conflitantes, que quase sempre originaram as guerras nas quais brasileiros lutavam uns contra os outros.

O Duque de Caxias entrou para a História do Brasil como “O Pacificador” por causa da maneira que conduzia as ações após as suas vitórias militares, e ao longo de sua extensa vida militar e política, esteve presente em inúmeros fatos que moldaram o Brasil de hoje.

Jovem oficial, compunha as fileiras do Batalhão do Imperador, e em 10 de novembro de 1822, recebeu do Imperador D.Pedro I, a recém criada Bandeira do Império. Alguns meses depois, o seu batalhão participou da guerra da Independência na Bahia, onde recebeu o seu batismo de fogo em 3 de maio de 1823. Vencida a resistência do General Madeira de Melo, e confirmada a vitória sobre as tropas portuguesas, o Tenente Luiz Alves de Lima e Silva passou ser um “Veterano da Independência”, título que mais o honrou ao longo da vida.

Único Duque do Império, foi agraciado pelo Imperador D Pedro II, com este título nobiliárquico em 23 de março de 1869 pelos serviços prestados ao Império na Guerra da Tríplice Aliança, também conhecida como Guerra do Paraguai. Marechal de Exército, último posto da hierarquia militar do Exército Brasileiro, ao qual fora promovido em 13 de janeiro de 1866, Caxias foi o responsável pelos dois grandes objetivos estratégicos do conflito. O objetivo militar, que era a tomada da Fortaleza de Humaitá, foi alcançado em agosto de 1868 e o objetivo político, que era ocupação de Assunção, a capital paraguaia, em janeiro de 1869.

Ao longo do tempo, a dedicação à Pátria demonstrada pelo Duque de Caxias semelhança no significado da frase “Brasil Acima de Tudo”, corriqueira e natural dentro dos muros dos quartéis. Ela é uma das primeiras lições aprendidas por todo brasileiro, e mais recentemente por toda brasileira que ingressa no Exército Brasileiro, seja em um estabelecimento de ensino formador de oficiais ou sargentos, bem como para os jovens que prestam o Serviço Militar Obrigatório.

É tarefa árdua destacar uma passagem da vida militar ou política do Duque de Caxias. Por outro lado, é impossível deixar de enaltecer a sua importância na manutenção da unidade territorial do Brasil, tendo em vista as inúmeras rebeliões que ele enfrentou, venceu militarmente, não subjugando ou humilhando os derrotados, e integrando-os ao Império, sem deixar espaço para ressentimentos servirem de combustível para outras rebeliões separatistas.

Em março de 1839, Caxias era o comandante da corporação que é a atual Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, quando seguiu viagem ao Rio Grande do Sul, como Ajudante de Ordens do Ministro da Guerra. Lá conheceu o Capitão Manuel Luís Osorio, o futuro General Osório, que estava para sair do Exército por causa de problemas particulares e por estar decepcionado como o Comandante das Armas do Rio Grande. Caxias convenceu Osório a permanecer no Exército e o Brasil garantiu que teria um grande general no futuro.

A Balaiada, ocorrida no Maranhão, entre 1838 a 1840, as Rebeliões Liberais de São Paulo e de Minas Gerais de 1842 e a Revolução Farroupilha ocorrida no Rio Grande do Sul, de 1835 a 1845 foram debeladas pela grande capacidade militar e política do Duque de Caxias. Ao fim do soar da metralha e com o silêncio do ronco dos canhões, e após mais uma vitória militar, Caxias sempre estendeu a mão pacificadora ao irmão brasileiro que lutava contra as armas do Império.

Balaiada

No Maranhão, Caxias recebeu a missão de pacificar a província envolvida em  guerra civil, e foi nomeado Presidente da Província e Comandante-Geral das Forças em Operações. Tinha as atribuições de estadista e de soldado e emitia as determinações civis e militares. Ao assumir as suas funções, emitiu a Ordem do Dia que destaca o seguinte trecho: “Maranhenses! Mais militar que político eu quero até ignorar os nomes dos partidos que por desgraça entre vós existem”

A cidade de Caxias, que viu o início da rebelião e que sofreu o cerco dos rebeldes, foi o local onde o então Coronel Luiz Alves de Lima e Silva derrotou definitivamente os revoltosos, levando a paz à província. O título de Barão de Caxias veio como o reconhecimento imperial pelo fim da Balaiada e pela pacificação do Maranhão, sendo a cidade o símbolo maior da vitória da ordem.

Revoluções Liberais de São Paulo e Minas Gerais

Divergências políticas em São Paulo e Minas Gerais causaram revoluções liberais nas duas províncias em 1842. Inicialmente deflagrada em terras paulistas, o Barão de Caxias, já no posto de Brigadeiro, foi chamado para ser o Comandante-em-Chefe das Forças da Província de São Paulo para debelar a revolta. As suas rápidas e eficientes ações impediram o êxito dos liberais paulistas e causaram a fuga e posterior prisão do Coronel Rafael Tobias de Aguiar.

Em 20 de maio de 1842, Caxias mandou carta ao comandante dos revoltosos   tentando evitar o conflito armado:

“Que pretende? Quer V.S. empunhar as armas contra o governo legítimo de nosso Imperador? Não o creio porque o conheço de muito tempo, sempre trilhando o caminho do dever e da honra. Acabo de chegar da Corte munido de autoridade para tudo aplanar. Não tenho sede de sangue dos meus patrícios, porém não deixarei de cumprir os meus deveres como militar. Ainda é tempo, não ensangüentemos o solo que nos viu nascer e não acendamos a guerra civil nesta bela província para não a vermos reduzida ao estado do Rio Grande de São Pedro do Sul e sua vizinha. (Santa Catarina). Responda-me e não se deixe fascinar por vinganças alheias.”

Soldados do Exército Imperial Brasileiro em 1842

Um dos líderes da revolta era o Padre Feijó, antigo Ministro e Regente do Império, a quem Caxias já havia servido em outras oportunidades. Após o fim dos combates eles corresponderam-se. Caxias recebeu carta de Feijó dizendo: “Quem diria que, em qualquer tempo, o Sr. Luís Alves de Lima seria obrigado a combater o padre Feijó? Tais são as coisas deste mundo”, referia-se ao “vilipêndio que tem feito o governo aos paulistas e às leis anticonstitucionais da Assembleia […] estaria em campo com minha espingarda, se não estivesse moribundo: mas faço o que posso”. Solicitava anistia a todos, “embora seja eu só o excetuado e se descarregue sobre mim todo o castigo”.

Caxias responde: “Quando pensaria eu, em algum tempo, que teria de usar da força para chamar à ordem o Sr. Diogo Antônio Feijó? Tais as coisas do mundo: as ordens que recebi de S. M. o Imperador são em tudo semelhantes às que me deu o Ministro da Justiça em nome da Regência, nos dias 3 e 7 de abril de 1832, isto é, que levasse a ferro e fogo todos os grupos armados que encontrasse, e da mesma maneira que então as cumpri, as cumprirei agora”.

Pacificada a província, Minas Gerais era o novo desafio para a paz no Império e mais uma vez Caxias foi chamado para dar combate à revolta naquelas terras, e empregou a mesma estratégia que foi vencedora em São Paulo. Usou a rapidez nos deslocamentos das tropas e a conquista de cidades estratégicas para ter acesso às capitais das províncias.

Em São Paulo, Caxias venceu a Batalha de Venda Grande, ocorrida em Campinas, possibilitando a sua posterior entrada em Sorocaba, que era o foco central da Revolução Liberal de São Paulo. Em Minas Gerais ocorreu o mesmo na Batalha de Santa Luzia, com a posterior entrada triunfal em Ouro Preto.

Importante fato histórico foi o apoio de veteranos da Batalha de Santa Luzia às ações de Caxias para a pacificação da Revolução Farroupilha. Fator decisivo para a manutenção da coesão nacional, mostrou que os vencidos em combate não guardavam ressentimentos do grande chefe militar que os derrotou.

Revolução Farroupilha

A revolução separatista dos gaúchos, iniciada em 1835, foi mais uma missão para o agora Marechal de Campo Graduado. Mesmo com a experiência e o sucesso na pacificação do Maranhão, São Paulo e Minas Gerais, a guerra gaúcha foi, sem dúvidas, o conflito interno mais longo e difícil da carreira do Duque de Caxias, que fora nomeado Presidente da Província do Rio Grande do Sul e seu Comandante-das Armas. Mais uma vez o estadista e o soldado entraram em ação

As ações militares do Duque de Caxias nesta guerra civil, levaram os farrapos à conclusão de que estavam derrotados militarmente, restando-lhes como única opção as negociações em busca de uma paz honrosa. Esta reação dos derrotados só foi possível graças à forma com que Caxias conduziu a guerra.

O apoio da população é muito importante para um dos contendores de um conflito armado sair vencedor. Desta forma Caxias tomou várias providências para contar com o apoio do povo gaúcho à causa do Império, ou pelo menos que esta população não fosse hostil às forças imperiais. Dentre estas ações destacam-se:

  1. Não permitir que a guerra atingisse a população civil, nunca requisitando seus recursos e permitindo a sua sobrevivência econômica;
  2. Perdoar e anistiar os farrapos que entregassem suas armas, através Decreto de 18 de dezembro de 1844;
  3. Realizar tratativas de paz em condições honrosas, negociando com firmeza, mas respeitando os negociadores republicanos e nunca aceitar propostas que levassem à separação do Rio Grande em relação ao Império;
  4. Buscar a paz rapidamente, visando prevenir provável interferência do ditador argentino Rosase da Inglaterra, que esboçaram possível apoio aos farrapos.

As ações acima citadas foram implementadas graças à visão estratégica e de longo prazo de Caxias, que desde o momento em que assumiu a condução do conflito e o controle político da então província rebelada contra o poder do Império, tinha a preocupação de não permitir que aquela importante região viesse a ser fonte de futuros problemas políticos e militares para o Império. O Rio Grande do Sul, que já foi palco de outros conflitos definidores das fronteiras brasileiras, tem fronteira com o Uruguai e permite fácil acesso ao estuário do Rio da Prata, que dentre outras características permitia a navegabilidade na Bacia dos Rios Paraná e Paraguai, e que, à época, constituía-se na única forma de ligação com a província do Mato Grosso.

Cenas da Revolução Farroupilha – Fonte: www.portaldasmissoes.com.br

No dia 1º de março de 1845, foi assinada a Paz de Ponche Verde, no atual município gaúcho de Dom Pedrito, encerrando definitivamente a Revolução Farroupilha. Por vontade dos gaúchos, Caxias foi mantido como Presidente da Província e Comandante das Armas. Brasileiros como os nascidos nas outras províncias do Império, os gaúchos foram adversários e passaram a ser aliados nas guerras externas contra o uruguaio Oribe e contra o argentino Rosas, em 1851-52, bem como na Guerra da Tríplice Aliança, contra o Paraguai de 1864-70, pois nestes conflitos os Exército Imperial incorporou os republicanos gaúchos, que ombrearam com todos para defender os interesses do Brasil. O Rio Grande do Sul ainda elegeu Caxias como Senador Vitalício, cargo que exerceu por mais de 30 anos.

Duque de Caxias e o Brasão do Ducado

Caxias considerava os adversários das rebeliões internas como irmãos rebelados, não como inimigos. Por isto ele trabalhou com alguns deles, como o Major Miguel Frias, seu Chefe de Estado-Maior na Revolução Farroupilha, que chefiou a sublevação da Fortaleza São João, na Ilhas das Cobras, sufocada por Caxias quando major em 1831. O General José Mariano de Matos, Ministro da Guerra da República Rio-Grandense, foi o seu Chefe de Estado-Maior, nas guerras contra Oribe e Rosas de 1851-52.

A pacificação das províncias rebeladas é o maior legado do Duque de Caxias. As rebeliões aqui citadas poderiam ser palco de secessões traumáticas que comprometeriam a unidade nacional, forjada desde quando Tomé de Sousa, o primeiro Governador-Geral do Brasil, chegou à na Bahia, no ano de 1548, para centralizar a administração da então colônia.

Enquanto São Paulo, Minas Gerais poderiam separar-se do Brasil em 1842, o Rio Grande do Sul tomou esta atitude em 1836 ao proclamar a República de Piratini. Só restava a alternativa militar para o refazer a autoridade do Imperador D Pedro II sobre todo território nacional. Caxias fez o que estava ao seu alcance e o Brasil continuou unido.

Caso Caxias tivesse outro comportamento com relação aos vencidos, a História do Brasil poderia ser totalmente diferente daquela que conhecemos hoje. Talvez o Brasil não teria os mais de 8,5 milhões de km² de território, pois muitas províncias de então, seriam independentes ou estariam unidas ou incorporadas a outras nações, como Argentina, Uruguai, Paraguai ou Bolívia.

Imaginemos um cenário de derrota militar dos farrapos, com a exigência de rendição incondicional, ocupação militar da província, prisão dos líderes da República, pagamentos de pesadas dívidas de guerra, aumentos de impostos, confisco de terras, proibição de exportações, etc. Estaria criado o cenário para grandes ressentimentos do povo gaúcho e a quase impossível reconciliação com o Brasil. Em 1851 e 1852 o Império combateu Oribe e Rosas, e certamente, os gaúchos não apoiariam estas guerras nas suas fronteiras, fato que dificultaria as ações do Exército Imperial.

Vinte anos após o fim da Revolução Farroupilha começou a Guerra da Tríplice Aliança, com Solano Lopez pretendendo formar o Grande Paraguai com acesso ao Oceano Atlântico, e para atingir este objetivo precisaria anexar o Uruguai, as províncias argentinas de Entre Rios e Corrientes e o Rio Grande do Sul.

Para uma província hipoteticamente humilhada e empobrecida, aliar-se ao ditador paraguaio seria uma oportunidade difícil de ser recusada. A diplomacia paraguaia estaria atuando em Porto Alegre para convencer os antigos farrapos a combater o Império, e talvez este conflito, iniciado em 1864, tivesse resultado diferente do que é registrado História, pois brasileiros lutariam uns contra os outros, contribuindo para a vitória militar paraguaia, que seria obtida através do derramamento de sangue entre brasileiros.

Conclusão

Símbolo de patriotismo e de dedicação à Pátria, o Duque de Caxias mostrou a simplicidade do grande soldado ao expressar o que desejava para o seu funeral: “…dispenso as honras fúnebres que me pertencem como Marechal do Exército e que só desejo que me mandem seis soldados, escolhidos dos mais antigos, e melhor conduta, dos Corpos da Guarnição, para carregar as argolas do meu caixão…”.

Caxias continua presente em cada militar brasileiro, o Espadim, que é o símbolo máximo do Cadete da Academia Militar das Agulhas Negras, a AMAN, onde são formados os oficiais do Exército Brasileiro é cópia fiel e em escala do invicto sabre do Marechal.

Por ocasião da Guerra da Tríplice Aliança Caxias disse à tropa brasileira que estava com dificuldade para transpor a ponte sobre o Arroio Itororó: “Sigam-me os que forem brasileiros”

Pelo Brasil, sigamos o nosso Duque de Caxias.

Cadetes da AMAN com o Espadim – Fonte: www.aman.eb.mil.br

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