Como a pandemia e a crise econômica afetam a educação brasileira?

A charge de Laerte, publicada na página A2 da Folha de São Paulo de ontem (14/10), resume o embaraço que vivemos. Milhões de estudantes brasileiros iniciam retorno às aulas presenciais em escolas públicas, mas a pandemia deixou uma herança social perversa.

Seja por incapacidade de resposta estatal ou qualquer outra hipótese, o cenário social e econômico tem sido implacável aos mais pobres. Não podemos deixar de apontar, o crescimento das favelas no Brasil antecede à pandemia. Dados atualizados da FGV (Fundação Getúlio Vargas) mostram que, desde 2014, a pobreza extrema tem aumentado e, hoje, atinge 27,4 milhões de pessoas. A quantidade de conglomerados, como favelas, era de 6.329 em 2010, e chegou a 13.151 em 2019 – são dados que não consideram o fator pandemia, ou seja, no dia de hoje a situação é mais dramática.

O desemprego, a queda brutal de renda das famílias e o aumento da inflação – tenhamos uma certeza – serão fatores que impactarão na recuperação das atividades educacionais. Estamos falando de um sobrecarregamento, já que, por si só, há prejuízos aos processos de aprendizagem severamente afetados e de difícil reversão.

Todos esses problemas sociais chegam às salas de aulas. São crianças cujas famílias passam fome. E estudos comprovam isso. O INEP mediu esses impactos e publicou o primeiro levantamento, é a pesquisa Resposta Educacional à Pandemia de Covid-19 no Brasil. As informações abaixo foram extraídas do site da Agência Senado:

No ensino remoto, os estudantes aprendem, em média, apenas 17% do conteúdo de matemática e 38% do de língua portuguesa, em comparação com o que ocorreria nas aulas presenciais.

Entre alunos que estão no 3º ano do ensino médio, a perda de aprendizagem acumulada já é estimada em 74%, tanto em português quanto em matemática. É importante ressaltar que esses estudantes, além do início de 2021, passaram praticamente todo o 2º ano estudando remotamente. Já ingressaram no último ano, portanto, com uma proficiência menor do que a esperada: 9 pontos a menos em língua portuguesa e 10 a menos em matemática — conforme o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb).

— A escala Saeb é a escala da Prova Brasil, avaliação nacional aplicada a cada dois anos. A pesquisa aponta que, em 2020, perdemos em torno de 10 pontos, sendo que em todo ensino médio os alunos aprendem em torno de 15 em matemática e 20 em português. Ou seja, perdemos metade do que se aprende no ensino médio inteiro — explica Laura Muller Machado, pesquisadora do Insper responsável pelo estudo.

Caso as aulas presenciais não retornem até o fim deste ano (2021), o deficit educacional pode quase dobrar, chegando a 16 pontos a menos em língua portuguesa e menos 20 em matemática. Em outras palavras, diz Laura Muller Machado, isso significa que os alunos praticamente sairiam do ensino médio com o mesmo aprendizado que tinham no 9º ano.

Os impactos da troca do ambiente escolar pelo virtual se demonstram ainda maiores para os alunos dos anos iniciais, especialmente os da rede pública. Segundo levantamento feito pela Secretaria Estadual da Educação de São Paulo (Seduc-SP), estudantes do 5º ano do ensino fundamental apresentaram os piores índices de queda na aprendizagem, na comparação com resultados do Saeb de 2019 — houve uma queda de 46 pontos em matemática e 29 em português.

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