Sérgio Moro e suas generalidades l Análise dos pré-candidatos l

“Podemos construir juntos um Brasil justo para todos”. Quem se oporia a essa máxima? Em cada entrevista que concede, o pré-candidato à presidência Sérgio Moro, que até então refutava sua candidatura, mantém a mesma postura: discursar sobre obviedades.

Muito embora, alguns poderiam dizer que as obviedades precisam ser ditas. Já que os problemas persistem, apesar dos discursos.  Não obstante, está pouco claro o porquê seria justamente Moro, um personagem político com a façanha de desagradar gregos e troianos, o presidente a unir todos em torno do belo e do justo. A mágica precisa ser revelada.

Moro foi consultar especialistas. Os especialistas lhe disseram que apenas programas de transferência de renda não são suficientes para combater a pobreza. O combate à pobreza virou uma bandeira de Moro.

Afinal, é preciso combater a pobreza. Não é mesmo? Fico a pensar qual candidato, da esquerda à direita, negaria tal afirmação.

Nem mesmo o Partido dos Trabalhadores, que reivindica para si o fim da fome no Brasil, chegou a postular que as fórmulas do Bolsa-família ou Fome Zero seriam as considerações definitivas para a erradicação da pobreza em terras brasileiras.

O que se percebe aqui é que, pouco importa o tema. Da pobreza, passando pelo meio ambiente e chegando aos debates sobre criminalidade. Moro revela-se um poço de generalidades e das mais grosseiras obviedades.

Ao eleitor, Moro pode bradar, “Fechem os olhos, lembrem-se do que fiz contra maldades de Lula e Bolsonaro, confiem que vai dar tudo certo”. Segundo pesquisas, dez por cento do eleitorado brasileiro está confiante. Já vimos esses filme antes.

Os pilares do programa econômico expostos em artigo na Folha de São Paulo, por um de seus interlocutores, só vem a reafirmar. Moro é candidato porque é Moro. É uma imagem que se construiu nos últimos anos. Ainda não se desvencilhou de suas incoerências, como pré-candidato só faz aumentá-las.

Essa história de homens públicos negarem com veemência visarem ao Palácio do Planalto e, na hora H, alegarem que a sociedade os chamou, que as forças políticas estão convergindo. Nem  mesmo nisso Moro conseguiu ser diferente.

Temos que buscar o equilíbrio fiscal. Temos que cortar privilégios e desperdícios. Temos que fazer reformas. Temos que unificar os impostos: “gente, a reforma do nosso confuso sistema tributário precisa ser feita”! Busque-se aleatoriamente qualquer artigo dos cadernos de economia dos últimos vinte anos.

Ninguém, com um senso mínimo de razoabilidade, poderia crer que Sérgio Moro vestirá uma capa de super-herói tupiniquim e colocaria todas essas metas em prática só porque ele estará no assento presidencial.

Entendemos que Moro não é candidato, e no momento é preciso preparar terrenos com considerações gerais do que virá a ser um programa de governo. Ocorre que todas essas generalidades precisam ser operacionalizadas. E Moro promete tudo, mas mais uma vez ficamos no escuro de como chegaremos LÁ.

Fico com a impressão de que os congressistas brasileiros não queriam trabalhar pelo Brasil durante os governos Lula e teimam em bater o pé contra o país nos anos de Bolsonaro. Mas como Moro será diferente: sem mensalão, sem rachadinhas, sem entrega de cargos para o centrão. Moro é a encarnação do pote de ouro no fim do arco-íris. Ele tem a receita! Tudo como a licença poética do sarcasmo poderia permitir neste momento.

O que sustenta Moro não é seu conteúdo. Infelizmente, é mais uma aposta no personalismo. O grande homem, corajoso, que teria lutado contra a corrupção da esquerda e depois foi apunhalado pela direita. Evidentemente, o ex-juiz nega que tudo faça parte de um plano pessoal. Não poderia ser diferente.

O que esperamos de todos os brasileiros, imersos em disputas ideológicas das mais hostis, é que, se optam por Moro, façam uma profunda reflexão de todo conteúdo que sustenta a imagem de juiz incorruptível e abnegado. Do contrário, estaremos, repetidamente, vendo os anos passares, as gerações crescerem e mantendo toda a lamentação por escolhas erradas nas urnas.

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