‘Não sei mais ser eu’: pai de Henry Borel se apoia em medicação, ONG e fé

Diante de duas telas, Leniel Borel, 37, trabalhava na tarde ensolarada desta quarta-feira (19). Durante uma reunião online, interagia com os colegas, falava sobre áreas em expansão do Petróleo e tirava dúvidas. De chinelos e calça jeans, usava uma camiseta com os dizeres: “Henry Borel – Apoio a crianças e adolescentes vítimas de violência”. Entre uma interação e outra, atendia ligações e resolvia problemas. corriqueiros. Nas paredes, quadros com pinturas de pai e filho decoravam o ambiente.

O apartamento espaçoso, com vista para a praia do Pontal, na zona oeste do Rio, parecia grande demais para uma pessoa só. Ao lado da piscina, a bola que Henry usava para brincar ainda estava na varanda — mesmo que tenham se passado 10 meses desde sua morte. O menino de 4 anos foi morto em 8 de março de 2021, dentro do apartamento em que vivia com a mãe, Monique Medeiros, e o padrasto — o ex-vereador Jairo Santos. O casal é acusado de homicídio triplamente qualificado e a próxima audiência está marcada para o próximo dia 9 de fevereiro. Jairo e Monique serão ouvidos pela primeira vez diante de uma juíza.

Ao lado dos computadores na mesa, repousa o frasco de calmante usado pelo engenheiro três vezes ao dia, por recomendações médicas, e uma cartela de antidepressivos. Fora o uso de remédios controlados, Leniel adicionou à sua rotina consultas quinzenais com um psiquiatra e sessões com uma psicóloga duas vezes por semana. As idas à igreja já aconteciam desde o divórcio com Monique, mas após a perda do filho, ficaram mais frequentes.

“Minha família fala pra eu me mudar, sair daqui, mas gosto do meu cantinho. Foram anos e anos até conseguir pagar, quitar as dívidas. Confesso que não queria, mas se Jairo de fato for condenado, talvez eu tenha que sair do Rio ou até mesmo do Brasil, para não correr risco de morte”, diz Leniel, explicando que vem sofrendo ameaças desde que a morte de Henry virou notícia.

Leniel Borelna casa onde mora e que vivia com a ex-mulher e Henry, no bairro do Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro

Reviravolta

Nascido e criado em Duque de Caxias, na baixada fluminense, Leniel Borel saiu de casa em 2007 para morar sozinho na mesma cobertura em que vive hoje. O pai de Henry se formou em ciências náuticas, se tornou oficial de Marinha mercante e cursou engenharia de produção e administração de empresas. Dois anos depois, conheceu Monique Medeiros na festa de aniversário de uma amiga em comum, na Barra da Tijuca. Em um ano e meio de namoro, já estavam casados.

As fotos guardadas dentro do rack da sala mostram os dois felizes, Monique loira, Leniel sem barba, viagens do casal, o dia do casamento e o parto de Henry. Foram 10 anos juntos, até que veio a pandemia e, em outubro de 2020, ela pediu a separação.

Leniel Borel mostra foto do parto de Henry

Um ano depois, a decoração da casa feita por Monique continua a mesma. Quadros de filmes antigos, poltronas vermelhas, mesa de centro e objetos decorativos em tons de rosa claro e azul ainda dão cor à sala. O quarto onde Henry dormia e passava os finais de semana com o pai continua o mesmo. Bonecos de heróis, jogos e livros representavam apenas um terço da quantidade de brinquedos que o menino tinha. No guarda-roupa, peças continuam intactas, algumas até com etiquetas, já que não chegaram a ser usadas.

A outra parte dos objetos de Henry ficou na casa da avó e no apartamento onde Monique morava com Jairo. “Acho que vou doar tudo isso assim que minha ONG começar a funcionar. A morte do meu filho não vai servir apenas para colocar Monique e Jairo na cadeia. Tem que ter um propósito nisso tudo. Decidi apoiar crianças e adolescentes vítimas de violência dentro de casa. Creio que até o final do mês a ONG já vai estar funcionando”, diz ao TAB.

Leniel mostra lembranças de Henry

Sem planos

Se antes Leniel fazia planos para a semana e a longo prazo, agora o objetivo é outro: “Não tem coisa pior na vida do ser humano do que perder um filho. Não sei mais ser eu mesmo. Antes eu tinha planos, sonhos, já tinha em mente o carro que eu iria querer trocar, hoje sou uma outra pessoa. Antes eu pensava a longo prazo, hoje não tenho mais planos. Agora é viver um dia após o outro. Não tenho mais carro, só ando de Uber para não ficar visado e, se hoje eu vou pra academia, amanhã eu corro na praia”, explicou.

O processo, as audiências e todas as notícias que circulam na mídia são acompanhadas diretamente por ele. A cada novidade, relata sentir angústia no peito. Datas comemorativas também são sempre muito difíceis: “Depois desse processo, quero lutar judicialmente para que Monique não possa mais chamar o Henry de filho. Me falaram que isso já é possível, então irei fazer”, afirmou. O engenheiro define a ex como uma figura gananciosa e consumista. “Esse apartamento estava no nome do Henry, então tenho medo que, depois de tudo isso, ela ainda queira lutar por algum bem”.

Quarto de Henry Borel, morto em 8 de fevereiro de 2021

‘Fiz do quarto do meu filho um altar’

Recluso, a vida de Leniel é resumida basicamente a casa, trabalho e igreja. No final do ano, como não queria ir a lugar nenhum, a família de Caxias foi até ele. Cerca de 40 pessoas celebraram o primeiro Natal com o pai que perdeu o filho. Entre ter a casa cheia ou vazia, Leniel afirma que prefere ficar só. No tempo livre, gosta de assistir séries, caminha pela praia e dá um mergulho para refrescar a mente.

Com as medicações, o engenheiro relata que tem ficado um pouco melhor, consegue controlar o choro, foca no trabalho e tenta evitar a inércia. No fim da tarde, depois de entrevistar um candidato a uma vaga de emprego na empresa onde trabalha, Leniel calça os sapatos, troca a camiseta e vai ao culto acompanhado pela reportagem. No caminho, diz que Deus, a fé, a família e os amigos são seus pilares nesse momento.

“Por diversas vezes, acordo de madrugada para orar. Fiz do quarto do meu filho um altar de oração. Diariamente tento participar dos cultos, das células e das programações de oração para encontrar as pessoas, estar em comunhão, mas tem semanas que não tenho vontade de fazer nada.”

A porta do templo — com capacidade para 600 pessoas e estrutura com pelo menos seis câmeras, jogo de luzes e palco — remete mais a uma casa de shows do que à ideia de igreja evangélica tradicional. O ministério de louvor, composto por três moças no coral e instrumentistas nas laterais do palco, cantavam: “Se Deus quiser levar, eu vou glorificar. Se Deus quiser trazer, eu só quero o Teu querer. Faz o Teu querer.”

No YouTube, 450 pessoas acompanhavam, ao vivo, as mesmas canções e a pregação que Leniel seguia com fervor. Em meio a pelo menos 300 pessoas presentes naquela noite, o engenheiro ouvia atento às palavras de fé e esperança. Momentos antes, admitiu à reportagem que a esperança ainda está longe de seu horizonte. “Tomei muita pedrada, tenho medo das pessoas. O ser humano é muito decepcionante, sabe? Às vezes penso que Jesus podia voltar logo. Até penso em casar novamente, ter filhos, mas não tenho pressa. Já pensou se eu encontro uma outra Monique? Não quero isso novamente”, reflete.

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