Operação prende 62 policiais militares no Mato Grosso suspeitos por 24 mortes

Agentes detidos são acusados de forjar confrontos para justificar mortes; PM diz que não coaduna com “desvios de conduta” mas que ” manutenção da ordem pública demanda postura combativa”

A Polícia Civil e o Ministério Público estadual do Mato Grosso prenderam 62 policiais militares,  entre oficiais e praças, que  teriam executado pelo menos 24 pessoas após forjarem situações de confronto em Cuiabá e Várzea Grande entre os anos de 2017 e 2020. A Operação Simulacrum conseguiu, até a última sexta-feira (1º), cumprir 78 dos 81 mandados de prisão expedidos pela Justiça — alguns dos PMs foram indiciados por mais de um crime. Nesta segunda-feira (4), a maior parte dos investigados começou a ser ouvida.

O comando-geral da PM informou ontem que ainda na tarde de sábado (2), o Tribunal de Justiça do estado já havia determinado a soltura de todos presos na operação. Mas os alvarás ainda não haviam sido expedidos até o início da noite desta segunda-feira (4).

A soltura foi determinada desembargador de plantão, Sebastião Barbosa Farias, atentendo a pedido de habeas corpus do advogado da Associação de Cabos e Soldados, Augusto Bouret Orro. “Certamente é legítima a investigação de práticas tidas por criminosas, ainda que sejam os agentes policiais militares. Todavia, as prisões, ainda que para justificar complemento de investigações de crime, não podem ser utilizadas de forma desmedida, desproporcional; decorrente de testemunhos de pessoas ‘supostamente envolvidas’ e de Laudos que podem ser contestados, com possibilidade de apontamento futuro de inexistência de caracterização criminosa”, alegou Farias.

“Após a emissão dos alvarás de soltura estaremos apoiando os militares do interior no deslocamento para suas residências, permanecendo à disposição da Justiça para os próximos desdobramentos”, informou o comando da PM.

Embora o comando da corporação afirme que “não coadunamos com desvios de conduta”, no mesmo comunicado, diz que “é importante ressaltar que a manutenção da segurança e da ordem pública demandam postura combativa e, neste mister, sempre enfrentaremos o crime e defenderemos os nossos heróis” e, sem seguida, avisa que “não aceitaremos que os direitos fundamentais, garantidos a qualquer cidadão, não alcancem os nossos policiais militares”.

“Estamos muito além da pirotecnia com a certeza inefável de que o Poder Judiciário está atento e vigilante ao restabelecimento da Justiça”, afirmou o comando da PM na nota.

No total, foram decretadas 81 prisões e 34 mandados de busca e de medidas cautelares diversas. Policiais e promotores apreenderam aparelhos celulares, notebooks, mídias, munições e armas que passarão por perícia.

O inquérito narra que os assassinatos ligados aos militares têm “evidentes características de execução”. Eles também responderão por tentativas de homicídio contra pelo menos outras quatro vítimas, que sobreviveram. De acordo com as investigações, a gangue de PMs contava com a atuação de um cúmplice que cooptava interessados na prática de crimes, como traficantes. O objetivo, no entanto, era ter um pretexto para matá-los. Os policiais militares atraíam essas vítimas a locais ermos, onde eles já esperavam por elas. Após a tocaia, elas eram mortas e os agentes simulavam o cenário de um confronto.

Segundo os investigadores, há quantidade “farta” de provas que reforçam a atuação da quadrilha. O objetivo deles, de acordo com a denúncia, era autopromoção na corporação, e promoção também de seus respectivos batalhões perante os demais. Na época dos fatos, os policiais militares investigados eram lotados na Rotam, Bope e Força Tática do Comando regional 1.

MP e Polícia Civil, por sua vez, reforçaram, que “as ações investigadas foram praticadas por alguns membros da corporação que agem à margem e à revelia da lei”, e que ambos “enfatizam o relevante trabalho que a Polícia Militar realiza para a sociedade no combate à criminalidade e na proteção do cidadão”.

O Globo