Lula e Bolsonaro estáveis; cenário eleitoral de outubro está mais realista

É muito difícil que pesquisas eleitorais consigam prever os resultados com tanta antecedência por duas razões fundamentais: o comportamento do eleitor não é estável e os arranjos políticos mudam até que os prazos finais da Justiça eleitoral sejam expirados. São dois fatores que se alimentam para sabotar a boa previsão eleitoral; então aí precisamos apurar os números através de análises.

IPESPE/XP Investimentos divulgou uma nova pesquisa. Lembrando que, para os bancos, a eleição de Lula ou Bolsonaro dá na mesma, e eles precisam de dados concretos por lidarem com mundo real das grandes transições financeiras – precisam de números confiáveis. Não há o porquê duvidar dos números levantados. E mais, em todos os institutos os candidatos chegam a patamares próximos.

Se a eleição fosse hoje, teríamos um Lula vencedor. Mas elas não são hoje, e basta essa premissa para chegarmos à conclusão de que a pesquisa não está a errar nem a acertar, ela lida com um fato hipotético. Além disso, temos agentes políticos indefinidos. Se até outrora tínhamos Moro no jogo, agora não temos mais. Não sabemos ainda o que será de João Dória, e muita água vai rolar. Não sabemos quem sai da disputa. Também não sabemos se teremos um cenário econômico melhor – e isso favorece Bolsonaro. Não sabemos se Lula tropeçará em algum problema. Mas é plenamente compreensível que as pesquisas estejam certas, vamos ver o porquê.

Segundo o instituto, Lula alcança, no primeiro turno, 44% das intenções eleitorais. Bolsonaro chegou a 32%. Aliás, ambos estão estáveis. Lula chegou ao seu patamar máximo, para um primeiro turno, e Bolsonaro já absorveu todo eleitorado morista que podia. As benesses oficiais que potencializam o voto em Bolsonaro também podem estar se esgotando – eu disse que ‘podem’, porque se tivermos um trimestre de julho, agosto e setembro de boas notícias, isso pode animar o eleitor e tornar o presidente uma opção possível para alguns grupos ainda indecisos. Convenhamos que Lula não tem muita margem de mobilidade neste aspecto. Ciro Gomes pontuou com 8% e Dória com 4%. Janones e Tebet chegaram a 2%. Temos uns 8% entre indecisos, nulos e que não sabem.

Estamos nos aproximando do cenário que será em outubro, por isso essa é a pesquisa mais realista até o momento. Um Lula forte, e um Bolsonaro nada fraco (e muitos analistas bateram na tecla, santa Internet para deixar os registros, que Bolsonaro não reelegeria).

Minha previsão é que LULA vença as eleições de 2022. E que fique claro, previsão não é torcida, é uma análise baseada em alguns indicativos.

 

E POR QUE LULA TENDE A MANTER A DIANTEIRA.

 

Vamos começar pelo o que a pesquisa aponta como resultado de segundo turno: Lula 53% e Bolsonaro 34%. Mas muitos dirão que as pesquisas erraram e erram as previsões, e é verdade.

Em 2018, a diferença entre Haddad (PT) e Bolsonaro chegou perto de 11 milhões de votos no segundo turno. É bastante voto! Mas pense bem: são 104 milhões de votos válidos neste segundo turno, então os onze milhões podem facilmente não estarem mais ali depois de quatro anos. E também, deixamos isso claro: é uma diferença que não traduz a máxima de que Bolsonaro tenha a maioria do povo brasileiro ao seu lado, esse mito cai por terra. Também cai por terra a noção equivocada de que o PT teria apenas meia dúzia de eleitores.

Tudo isso é verdade, para quem está imerso em algum tipo de bolha social.

Outro fator, Bolsonaro não é mais novidade, e não ganhou novos grupos sociais ao seu portifólio de eleitores. Ao contrário, acumulou rejeições. Rejeições essas que são naturais do desgaste de quem comanda a máquina pública. Ou seja, Bolsonaro perdeu muito mais nesse grupo de onze milhões em comparação ao que pode ter ganhado de 2018 pra cá.

Não podemos esquecer que Bolsonaro também sofreu danos com as derrapadas envolvendo membros da sua família e do governo. As barras de ouro negociadas como propina, como apontam reportagens, é um dos elementos que mostram ao seu eleitor que existe fragilidade no discurso ético de Bolsonaro.

O oponente do presidente era o petista e desconhecido Fernando Haddad. Notem: petista e desconhecido. Por ser petista, Haddad acumulava 52% de rejeição (que é a marca atingida por Bolsonaro hoje), e Bolsonaro chegava a 44%. É um grande mito que pesquisas eleitorais, em sua totalidade, preservavam Haddad. Ao contrário, pesquisas de outubro de 2018 do Datafolha já mostravam esses indicadores de baixa para o petista. Naquele momento o PT atingiu sua máxima histórica em rejeição. Hoje o partido voltou às taxas de sempre, então não temos o fator do anti-petismo tão latente. E ele foi crucial.

Dilma, impeachment, petrolão, golpe. Esse era o cenário em que vivam os brasileiros. Claro que as pessoas não esqueceram, porém a inflação, a corrosão salarial e o desemprego despertam em parte do eleitor o sentimento de mudança. E o PT sabe bem como resgatar a memória afetiva do brasileiro sobre a primeira década dos anos 2000. E resgata com Lula, e não Fernando Haddad, como o mensageiro da mudança. Há um grande eleitorado não-ideológico que votaria em Lula ou Bolsonaro, a depender de questões econômicas. Pode parecer estranho que haja brasileiros fora do circuito convencional, mas a tendência dessa parcela é direcionar seus votos ao ex-presidente.

Lula já tem solidez em seus números de rejeição, por mais que sua biografia tenha sido abalada, ainda assim 47 milhões de brasileiros votaram em seu afilhado político em 2018. Bater na tecla de que Lula é ladrão não será a facada eleitoral para reeleger Bolsonaro.

A única chance de Bolsonaro agora é que haja um intenso movimento econômico favorável e amplo uso de recursos públicos para mitigar esse efeito compensador que dá a Lula mais vantagem em certos nichos de eleitores. Eu tenho pouca fé que isso ocorrerá.

Lula será eleito. Bolsonaro não irá á posse entregar a faixa. E não, não haverá golpes militares. Muito ruído? Sim, demais.

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